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Hansahoehe completa 90 anos como símbolo da história de Ibirama

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Foto de Jor. Marcelo Zemke
Jor. Marcelo Zemke

Construído em 1936 com a participação da comunidade, prédio atravessou período de guerra, intervenção do Estado e décadas de transformações; hoje, preserva parte da memória histórica e cultural do município

Um dos cartões-postais mais conhecidos de Ibirama completou 90 anos  no domingo, dia 20 de setembro. O Hansahoehe, edifício que se destaca na paisagem da cidade e se tornou um dos principais símbolos arquitetônicos do município, carrega uma história marcada pela mobilização comunitária, pela medicina, pelos impactos da Segunda Guerra Mundial e pela luta pela preservação do patrimônio local.

Idealizado pelo médico alemão Friedrich Kröner, primeiro diretor da instituição, o prédio teve sua pedra fundamental lançada em 12 de maio de 1935. A construção avançou rapidamente e o hospital foi entregue em 1936, recebendo os primeiros pacientes em outubro daquele ano.

Segundo a historiadora Sandra Maria Secchi, ouvida pela repostagem em 2025, até mesmo a posição do edifício, a incidência da luz solar, a espessura das paredes e a altura foram planejadas para proporcionar melhores condições aos pacientes em uma época em que ventiladores e aparelhos de ar-condicionado não faziam parte da realidade hospitalar.

Uma obra construída pela comunidade

Antigo hospital Hammonia/ Fotos Arquivo Público Carlos Pabst

O Hansahoehe surgiu para substituir o antigo Hospital Hammonia, mantido pela Associação Hospitalar de Caridade entre 1913 e 1935, na Rua Blumenau. Com problemas de umidade, infiltrações e dificuldades financeiras, a antiga estrutura já não oferecia condições adequadas para o atendimento. O edifício tinha dois pavimentos e técnica enxaimel. Com dificuldades financeiras, as condições insalubres dos últimos anos, como a umidade e infiltrações dificultavam os trabalhos. O médico Friedrich Kröner chegou a perder os três dos primeiros pacientes, conforme relatou em suas memórias: ‘Desde o início, meu trabalho não foi visto com bons olhos, pois  o  primeiro  paciente  morreu, o segundo não melhorou e o terceiro também faleceu’.

A comunidade teve papel decisivo na construção do novo hospital. Houve apoio por meio de doações da população e da Ordem Auxiliadora de Senhoras Evangélicas (OASE Ibirama), que contribuiu com roupas de cama e utensílios domésticos. A Alemanha também enviou auxílio financeiro através da Volksbund für das Deutschtum im Ausland.

O projeto arquitetônico foi assinado por Simão Gramlich, responsável também pela Catedral São João Batista, em Rio do Sul, enquanto Peter Schelle supervisionou a obra.

Guerra mudou os rumos do hospital

Em 8 de junho de 1941, o interventor federal Nereu Ramos visitou o hospital

A trajetória do Hansahoehe sofreu uma profunda mudança durante a Segunda Guerra Mundial. Em 8 de junho de 1941, o interventor federal Nereu Ramos visitou o hospital. No ano seguinte, o Governo do Estado de Santa Catarina decretou intervenção e confiscou o prédio em junho de 1942, conforme o Decreto nº 2459.Nesse período, o hospital foi confiscado pelo Governo do Estado, transformado em sanatório para tuberculosos, conforme o Decreto nº 2459, de junho de 1942.

Em 1942, Friedrich Kröner foi preso por conta da declaração de guerra conta do  Alemanha e a severa política de repressão contra o uso da língua alemã no Brasil. Naquele período, o uso da língua alemã estava submetido às restrições impostas durante a campanha de nacionalização. A denúncia partiu de uma enfermeira com quem ele mantinha desavenças, que relatou a existência de uma biblioteca com 440 livros em alemão dentro do hospital. Kröner passou dois anos detido em campos de concentração em Florianópolis e no Rio de Janeiro.

O nome também mudou durante esse período, passando a ser Hospital e Maternidade Miguel Couto. Ao longo das décadas, histórias sobre supostos túneis secretos e outras estruturas escondidas alimentaram o imaginário popular. Segundo Sandra, porém, estruturas muitas vezes apontadas como passagens secretas tinham funções práticas, como transporte interno, como de roupas para a lavanderia e drenagem.

Devolução marcou a história de Ibirama

Depois de décadas de reivindicações, o prédio foi devolvido em 20 de setembro de 1986. O momento provocou grande mobilização em Ibirama. Moradores que haviam participado da construção foram homenageados, enquanto Victor Kumrow recebeu a Medalha Anita Garibaldi pelos serviços prestados ao município e ao Estado.

Começava então uma nova etapa. A Associação trabalhou para recuperar o edifício, que necessitava de intervenções após os anos sob administração estadual. Com apoio da comunidade e recursos públicos, foram realizadas ações de conservação e restauração.

Dez anos após a devolução, em 20 de setembro de 1996, o prédio restaurado foi reinaugurado e voltou oficialmente a utilizar o nome Hansahoehe.

Sala de cirurgias do Hansahoehe- Foto Acervo fotográfico Associação Hansahoehe

Patrimônio que permanece vivo

Atualmente, o edifício abriga o Museu Histórico Eduardo Lima e Silva Hoerhan, teatro, além de clínicas médicas. Com aproximadamente 3,8 mil metros quadrados, a manutenção da estrutura representa um desafio permanente. Parte das despesas é custeada pelos aluguéis das salas e pelas contribuições de associados.

O processo de tombamento estadual representa mais um capítulo dessa trajetória. Conforme o presidente da Associação Hansahoehe, Dirceu Leite, a iniciativa ganhou força após a pandemia, diante da necessidade de assegurar a sustentabilidade do edifício e ampliar seu aproveitamento cultural. Conforme ele, o processo de tombamemtno está sendo finalizadoem e deverá ser concluído em novembro.

A expectativa é de que a proteção patrimonial também facilite o acesso a mecanismos de incentivo destinados à restauração, manutenção e realização de atividades culturais.

Aos 90 anos, o Hansahoehe permanece muito além de sua função original de hospital. Construído pelo esforço coletivo, confiscado durante um dos períodos mais conturbados da história brasileira, devolvido décadas depois e restaurado pela comunidade, o edifício continua ocupando lugar central na memória e na paisagem de Ibirama.

Foto Marcelo Zemke
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