Rede Catarina reforça ações no Agosto Lilás para combater a violência contra a mulher em Ibirama

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Jor. Marcelo Zemke

Em entrevista, coordenadora do programa na área da 2ª Companhia do 13º BPM, fala da gravidade do problema

Marcelo Zemke

Nas últimas semanas, casos de violência contra a mulher voltaram a estampar as páginas policiais da região, trazendo à tona a dura realidade enfrentada por muitas vítimas. Em meio a esse cenário, a Rede Catarina de Proteção à Mulher, da Polícia Militar de Santa Catarina, intensificou suas ações em Ibirama durante o Agosto Lilás, mês de conscientização pelo fim da violência doméstica e familiar.

A coordenadora do programa na área da 2ª Companhia do 13º BPM, Sargento PM Soiane Rodrigues, destacou a importância da mobilização e apresentou números que revelam a gravidade do problema.

Entre 2013 e 2023, 47.463 mulheres foram assassinadas no Brasil. Somente em Santa Catarina, em 2024, foram registrados 51 feminicídios consumados. Já entre janeiro e julho de 2025, o estado contabilizou 29 casos. O volume de medidas protetivas também impressiona: 30.234 emitidas em 2024 e outras 18.584 já registradas em 2025, apenas nos primeiros sete meses do ano.

Segundo a Sargento Soiane, a Rede Catarina tem como missão proteger e acompanhar mulheres vítimas de violência, por meio de visitas preventivas, fiscalização das medidas protetivas de urgência e ações educativas em escolas e comunidades. O programa também utiliza recursos tecnológicos, como o aplicativo PMSC Mobile, que permite o acionamento do botão do pânico e garante resposta rápida da Polícia Militar.

Um dos principais braços do programa é a Patrulha Maria da Penha, que realiza visitas periódicas às vítimas, orienta sobre o uso do aplicativo de segurança e mantém vínculo direto com as mulheres em situação de vulnerabilidade. Em 2024, Santa Catarina registrou 894 acionamentos do botão do pânico e 1.175 prisões por descumprimento de medidas protetivas, demonstrando a efetividade das ações.

A Rede Catarina também atua em integração com o Poder Judiciário, Polícia Civil e Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), fortalecendo a rede de apoio e possibilitando respostas mais ágeis em situações de risco. Casos como a denúncia de uma espingarda irregular feita por uma mulher em Ibirama exemplificam a importância do canal seguro para relatos.

Efetivo

Apesar dos avanços, a Sargento Soiane reconhece desafios. O principal é o baixo efetivo policial, especialmente em municípios do interior, o que dificulta a realização constante das visitas preventivas. “A Patrulha Maria da Penha deveria ter ao menos dois policiais, preferencialmente uma mulher, mas muitas vezes encontramos apenas um agente acumulando funções”, explicou. Para enfrentar essas limitações, a Polícia Militar tem priorizado os casos de maior risco, investido em capacitação e ampliado o uso de tecnologia para agilizar o atendimento.

A coordenadora também reforçou a necessidade de atenção por parte da comunidade. Mudanças bruscas de comportamento, isolamento, uso frequente de roupas longas para esconder marcas, baixa autoestima e sinais de depressão podem indicar que uma mulher está sofrendo violência.

Por fim, a Sargento deixou uma mensagem de encorajamento às vítimas que ainda têm medo de denunciar: “Sabemos que não é fácil, mas é preciso lembrar que vocês não estão sozinhas. Denunciar é o primeiro passo para recuperar a dignidade, a liberdade e o direito de viver sem medo”.

Mulheres em situação de risco ou testemunhas de violência podem buscar ajuda por meio do telefone 190, diretamente na Rede Catarina, na Polícia Civil ou na OAB.

JVN -Sargento, qual é a principal missão da Rede Catarina e como o programa atua na prevenção e no combate à violência contra a mulher na nossa região?

É importante ressaltar, primeiramente, os dados alarmantes que evidenciam a gravidade da violência contra a mulher no Brasil. Entre 2013 e 2023, 47.463 mulheres foram assassinadas no país. Em Santa Catarina, segundo dados da Secretaria de Estado da Segurança Pública, foram registrados 51 feminicídios consumados apenas em 2024. Já entre janeiro e julho de 2025, o estado contabiliza 29 casos. No mesmo período, o número de medidas protetivas concedidas reflete a dimensão da demanda por proteção: em 2024, foram 30.234 medidas emitidas, conforme o Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC). Em 2025, somente nos sete primeiros meses do ano, já foram registradas 18.584 medidas protetivas. Esses números revelam não apenas a persistência do problema, mas também a urgência de fortalecer as políticas públicas de enfrentamento à violência doméstica e de ampliar o suporte às vítimas.

O Programa Rede Catarina de Proteção à Mulher, é um programa institucional da Polícia Militar de Santa Catarina, direcionado à prevenção dos crimes de violência doméstica e familiar contra a mulher, buscando conferir maior efetividade e celeridade às ações de proteção à mulher.

O objetivo principal é proteger e acompanhar as mulheres vítimas de violência doméstica e familiar por meio de visita preventiva policial (VPP), fiscalização de medidas protetivas de urgência (MPU); promover ações preventivas e restaurativas focadas em pacificar conflitos e solucionar problemas relacionados a crimes no âmbito doméstico e familiar;  e por fim, através de intermédio de soluções tecnológicas, desde 2019, a Polícia Militar conta com o aplicativo PMSC Mobile, que permite a ativação do botão do pânico, agilizando o atendimento de ocorrências envolvendo vítimas com medida protetiva.

JVN – Quais são as ações práticas que a Rede Catarina realiza para oferecer segurança e acompanhamento às mulheres que possuem medidas protetivas?

Compete aos policiais militares integrantes da Patrulha Maria da Penha a realização de visitas preventivas às residências das vítimas com medida protetiva de urgência, atuando de forma próxima e contínua no acompanhamento dos casos. Além disso, cabe aos policiais orientar as vítimas quanto à instalação e ao uso do aplicativo PMSC Cidadão, explicando detalhadamente o funcionamento e a importância do botão do pânico como ferramenta de resposta rápida em situações de risco iminente. Atualmente, o estado de Santa Catarina conta com 60 patrulhas da Maria da Penha em atividade, o que representa um esforço significativo da Polícia Militar na atuação preventiva. De acordo com dados da Rede Catarina, somente em 2024 foram registrados 894 acionamentos do botão do pânico, evidenciando o quanto essa tecnologia tem sido essencial para salvar vidas e garantir uma resposta imediata por parte das forças de segurança. Manter vínculo com as mulheres acompanhadas, orientando e encaminhando, quando necessário, para os demais órgãos da rede de proteção existentes na nossa região; promover ações educativas de prevenção à violência contra a mulher, pelo meio de palestras para instituições envolvidas, vítimas, autores ou comunidade em geral; e comunicar o Poder Judiciário, as situações em que, mesmo não havendo flagrante delito, haja risco atual ou iminente à mulher, para que providências judiciais possam ser deferidas, a exemplo de decretação de prisões preventivas e prorrogação de MPU à mulher, em 2024 foram realizadas 1.175 prisões por descumprimento de MPU.

JVN- Na sua experiência, quais são os sinais de alerta que familiares e amigos devem observar para identificar possíveis situações de violência doméstica?

É preciso os familiares observar mudanças marcantes na personalidade e hábitos da vítima; como por exemplo: visualizar se a vítima está apresentando algum sinal físico como hematomas frequentes, explicações inconsistentes, uso de mangas compridas no calor, comportamento ansioso, agitado ou deprimido; baixa no desempenho escolar, no trabalho ou em outras atividades; afastamento familiar, baixa autoestima, pouca flexibilidade para enfrentar adversidades, até isolamento social e desesperança; perda de interesse em atividades de que gostava; descuido da aparência, com a perda ou ganho inusitado de peso e mudanças no padrão de sono e comentários autodepreciativos constantes.

JVN – Quais são os principais desafios enfrentados no trabalho de proteção às mulheres e como a Rede Catarina tem buscado superá-los?

Um dos principais desafios enfrentados no trabalho de proteção às mulheres é o baixo efetivo da Polícia Militar, especialmente em cidades do interior. Isso impacta diretamente na constância das visitas preventivas, uma das ações mais importantes para garantir a segurança das vítimas com medidas protetivas. A Patrulha Maria da Penha, por exemplo, deveria ser composta por pelo menos dois policiais, sendo preferencialmente uma mulher. No entanto, na prática, é comum encontrarmos apenas um policial atuando sozinho e acumulando múltiplas funções para atender toda a demanda da região.

Apesar dessas limitações, a Rede Catarina tem buscado superar esses obstáculos por meio da otimização de recursos, priorização de atendimentos com base no nível de risco das vítimas e fortalecimento da articulação com outros órgãos da rede de proteção. Também tem havido investimento em capacitação contínua dos policiais envolvidos, além do uso de ferramentas tecnológicas, como o aplicativo PMSC Mobile, que permite o acionamento do botão do pânico e oferece maior agilidade na resposta às ocorrências. Essas estratégias têm sido fundamentais para garantir, mesmo diante de limitações operacionais, um atendimento mais humanizado e eficiente às mulheres em situação de violência.

JVN- Que mensagem a senhora deixa às mulheres que ainda têm medo de denunciar e à comunidade, para que possamos fortalecer essa rede de apoio?

A todas as mulheres que ainda têm medo de denunciar, a minha mensagem é de coragem e esperança. Sabemos que não é fácil, mas é preciso lembrar que vocês não estão sozinhas. A Polícia Militar está preparada para acompanhar cada passo nesse momento tão difícil, oferecendo proteção e apoio constante. Além disso, outros órgãos do Estado também estão à disposição, garantindo assistência jurídica, psicológica e social.

Romper o ciclo da violência é um ato de força – e nunca de fraqueza. Denunciar é o primeiro passo para recuperar a dignidade, a liberdade e o direito de viver sem medo. E à comunidade, reforço a importância de estarmos atentos, acolhedores e comprometidos em não julgar, mas apoiar. Fortalecer essa rede de proteção é responsabilidade de todos nós. Juntas e juntos, podemos salvar vidas.