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Rede Vale Norte

22 de setembro: a história da pacificação dos Laklãnõ/Xokleng em Ibirama

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Foto de Jor. Marcelo Zemke
Jor. Marcelo Zemke

Data lembra o contato de 1914 e resgata a trajetória de Eduardo de Lima e Silva Hoerhann, os conflitos com os bugreiros e a história de um povo que resistiu à ocupação de seu território

Foto Arquivo Público Carlos Pabst

O 22 de setembro marca uma data que faz parte da história de Ibirama e do Alto Vale do Itajaí. É o Dia Municipal da Pacificação dos Indígenas Laklãnõ/Xokleng, criado para lembrar o contato ocorrido em 22 de setembro de 1914, quando o então funcionário do Serviço de Proteção aos Índios (SPI), Eduardo de Lima e Silva Hoerhann, estabeleceu contato pacífico com integrantes do povo Xokleng, às margens do córrego Plate e do rio Hercílio.

Mais de um século depois, a data permanece cercada de significado histórico. O episódio conhecido como “pacificação dos Xokleng” é interpretado de diferentes maneiras por historiadores e pelo próprio povo Laklãnõ/Xokleng. Para alguns, representou o fim de um período de confrontos e perseguições. Para outros, o processo também precisa ser analisado considerando as consequências da ocupação territorial, do confinamento e das políticas de integração impostas aos indígenas.

O resgate dessa história permite compreender não apenas a trajetória de Hoerhann, mas também a resistência dos povos originários que já habitavam o Alto Vale muito antes da chegada dos colonizadores.

O contato de 1914

Eduardo Hoerhann chegou à região em um período de intensos conflitos entre indígenas e colonizadores. Bisneto de Joaquim José, tio de Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, ele tinha apenas 18 anos quando liderou a equipe responsável pela aproximação com os Xokleng.

Na manhã de 22 de setembro de 1914, Hoerhann conseguiu estabelecer o contato às margens do córrego Plate e do rio Hercílio. Segundo os relatos históricos, ao avistar os indígenas do outro lado, ele acenou e pronunciou algumas palavras do vocabulário Xokleng que havia aprendido. A iniciativa provocou risadas entre os indígenas e ajudou a romper a tensão daquele primeiro encontro.

A data passou a ser lembrada como o Dia da Pacificação.

Um período marcado pela violência

Antes do contato, a região vivia um cenário de conflitos entre os indígenas e os colonizadores que avançavam sobre os territórios tradicionalmente ocupados pelos Xokleng.

Nesse contexto atuavam os chamados bugreiros, grupos contratados para perseguir e matar indígenas. Os ataques faziam parte de uma realidade de violência que acompanhou o processo de colonização de diferentes áreas do Sul do Brasil.

O historiador Rafael Hoerhann, bisneto de Eduardo, defende que o episódio de 1914 deve ser compreendido como um ato de paz, principalmente por ter contribuído para interromper os confrontos.

Segundo ele, a pacificação resultou na cessação das mortes provocadas pelos combates entre indígenas e colonos, em um período no qual os territórios tradicionais dos Xokleng eram ocupados pela colonização.

Rafael também destaca a postura de Eduardo diante dos bugreiros. Em um relato citado pelo memorialista Plínio Moser, Hoerhann teria ameaçado Martinho Bugreiro, conhecido por liderar expedições contra indígenas, afirmando que iria procurá-lo caso soubesse de novos ataques.

O Serviço de Proteção aos Índios

A atuação de Hoerhann ocorreu no contexto da criação do Serviço de Proteção aos Índios (SPI), em 1910. O órgão tinha entre seus objetivos estabelecer contato com povos indígenas e promover sua integração à sociedade nacional.

O Alto Vale do Itajaí era considerado uma das áreas de conflito e de expansão da colonização. Em 1913, Eduardo Hoerhann chegou à região e passou a organizar as ações de aproximação.

No ano seguinte, conseguiu estabelecer o contato com os Xokleng, então frequentemente chamados de Botocudos nos documentos e relatos da época.

A criação da reserva

Depois do contato, Hoerhann passou a trabalhar para convencer lideranças indígenas a permanecerem em uma área demarcada.

Em 1921, o território passou a ser denominado Posto Indígena Duque de Caxias. O processo está relacionado à formação da área que posteriormente daria origem à atual Terra Indígena Ibirama-La Klãnõ.

De acordo com o historiador Rafael Hoerhann, três importantes lideranças indígenas foram convencidas a permanecer no posto como uma alternativa para garantir a sobrevivência da comunidade diante das perseguições.

Nem todos aceitaram permanecer. Parte dos indígenas retornou às matas, e as transformações provocadas pelo contato e pela política indigenista alteraram profundamente o modo de vida tradicional do povo.

A área indígena atualmente abrange territórios de municípios do Alto Vale e do Planalto Norte, incluindo José Boiteux, Vitor Meireles, Itaiópolis, Doutor Pedrinho e Rio Negrinho.

Os efeitos do processo

O processo iniciado em 1914 trouxe mudanças profundas para os Laklãnõ/Xokleng.

Entre os aspectos considerados positivos pelo historiador Rafael Hoerhann estão a demarcação de uma área indígena, a introdução de novas práticas de subsistência e a criação de uma escola que atendia crianças indígenas e não indígenas da região.

Ao mesmo tempo, a permanência na reserva significou uma mudança radical no modo de vida de um povo tradicionalmente ligado à caça, à coleta e à mobilidade pelo território.

Décadas depois, a própria comunidade enfrentaria novos conflitos envolvendo seu território, especialmente com a construção da Barragem Norte, que provocou impactos sobre a Terra Indígena e permanece como um dos principais capítulos da história recente dos Laklãnõ/Xokleng no Alto Vale.

Katanghara, o nome dado pelos indígenas

Em Ibirama, a memória de Eduardo Hoerhann permanece presente também no Cemitério Municipal, onde está sua sepultura.

A lápide tem formato semelhante à ponta de uma flecha e traz a inscrição “Aqui jaz Katanghara”.

O nome foi atribuído a Eduardo pelos indígenas. Katanghara faz referência à cabiúna, madeira utilizada pelos Xokleng na fabricação de arcos. A denominação estaria relacionada ao porte físico e à personalidade de Hoerhann.

O arrependimento de Eduardo Hoerhann

A trajetória do chamado pacificador também teve uma mudança de perspectiva ao longo dos anos.

A partir da década de 1930, Eduardo passou a manter contato com pesquisadores que estudavam os Xokleng, entre eles o antropólogo norte-americano Jules Henry e o etnólogo Kurt Nimuendajú.

Segundo o historiador Rafael Hoerhann, esse contato teria contribuído para modificar a visão de Eduardo sobre o trabalho que havia realizado.

Em depoimento ao antropólogo Darcy Ribeiro, em 1953, Eduardo teria manifestado arrependimento por ter retirado os indígenas das matas e pela falta de proteção estatal que, segundo ele, havia sido prometida.

Em uma entrevista concedida ao jornal O Estado, em 20 de julho de 1973, já no fim da vida, Eduardo também falou sobre sua experiência e afirmou que não assumiria novamente a mesma missão.

A declaração demonstra uma mudança importante na própria trajetória do homem que ficou conhecido como pacificador: décadas depois do contato de 1914, ele passou a questionar os efeitos da política de “pacificação” e de “civilização” aplicada aos indígenas.

Uma história que permanece viva

Mais de um século depois do encontro às margens do rio Hercílio, o 22 de setembro continua sendo uma data de memória para Ibirama e para o Alto Vale do Itajaí.

A história de Eduardo Hoerhann faz parte desse passado, mas não é a única história a ser lembrada. A trajetória dos Laklãnõ/Xokleng, sua resistência, sua cultura, suas perdas e sua permanência no território também são elementos fundamentais para compreender a formação da região.

Resgatar esse capítulo da história não significa apenas lembrar personagens e acontecimentos de 1914. Significa reconhecer que o Alto Vale possui uma história indígena muito anterior à colonização e que o povo Laklãnõ/Xokleng continua presente, preservando sua identidade e sua cultura.

O Dia Municipal da Pacificação dos Indígenas Laklãnõ/Xokleng é, portanto, uma oportunidade para revisitar esse passado, compreender suas diferentes perspectivas e valorizar a memória de um povo que faz parte da história e da identidade do Alto Vale do Itajaí.

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