Ulisses Gabriel deve deixar Delegacia-Geral e saída antecipada expõe irritação de Jorginho Mello

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Matheus Cerqueira

O delegado-geral Ulisses Gabriel deve deixar o comando da Polícia Civil de Santa Catarina no próximo dia 1º. A saída, que pela regra eleitoral ocorreria apenas em abril, pode ser antecipada em cerca de um mês diante do desgaste político e institucional provocado pelo caso conhecido como “Cão Orelha”.

Deputados estaduais do Partido Liberal já relatavam que o governador teria sinalizado que Ulisses não permaneceria no cargo. Segundo interlocutores, a orientação teria sido clara: ele poderia anunciar a saída nos termos que considerasse adequados, mas não seguiria à frente da corporação.

A possível exoneração reforça a informação de que o governador ficou irritado após afirmar publicamente que as provas do caso eram “de embrulhar o estômago”, declaração que posteriormente gerou questionamentos.

Desgaste interno e críticas

Há meses, Ulisses vinha sendo alvo de críticas dentro e fora da própria Polícia Civil por uma atuação considerada excessivamente midiática. Delegados e agentes apontavam, reservadamente, que a exposição frequente em redes sociais e entrevistas estaria associada a um movimento de pré-candidatura a deputado estadual, o que teria gerado desconforto interno.

O episódio envolvendo o “Cão Orelha” aprofundou a crise. A condução pública do caso, marcada por declarações contundentes e ampla divulgação nas redes, passou a ser questionada diante de inconsistências apontadas nos autos. O Ministério Público de Santa Catarina instaurou Procedimento Investigativo Criminal para apurar a postura do delegado-geral.

A delegada Mardjoli Valcareggi, titular da Delegacia de Proteção Animal de Florianópolis, não foi incluída na apuração. A Associação dos Delegados de Polícia de Santa Catarina publicou nota pública de apoio direcionada exclusivamente à delegada, gesto interpretado como sinal de distinção entre a atuação técnica da especializada e a exposição do então chefe da instituição.

Sucessão e cenário político

Nos bastidores, o nome do delegado Marcelo Nogueira chegou a ser cogitado para assumir o comando da Polícia Civil, hipótese que manteria influência do atual delegado-geral. A possibilidade, porém, perdeu força.

Ganha espaço a delegada Michele Alves, atual diretora do Procon, vista como alternativa para uma transição com menor carga política.

Ontem, Ulisses Gabriel anunciou nas redes sociais que deixará o cargo para ser pré-candidato a deputado estadual, mencionando a necessidade de afastamento seis meses antes das eleições, conforme a legislação eleitoral. No entanto, para cumprimento estrito da regra, a exoneração deveria ocorrer apenas em abril. A antecipação reforça a leitura de que a decisão tem forte componente político.

Se confirmada, a troca no comando da Delegacia-Geral representará mais do que uma mudança administrativa. Marca o encerramento de um ciclo de intensa exposição pública, tensão interna e debate sobre os limites entre atuação institucional e projeto político pessoal na segurança pública catarinense.