
Uma das receitas mais tradicionais da gastronomia catarinense está no centro de uma polêmica que mobiliza produtores, lideranças políticas e defensores da cultura regional. A possível mudança na composição da tradicional Linguiça Blumenau vem gerando preocupação no Vale e Alto Vale do Itajaí após novas exigências técnicas ligadas ao Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA).
A discussão envolve a redução do percentual máximo de gordura permitido no produto. Atualmente, a regulamentação estadual autoriza até 42% de gordura na composição da linguiça, mas a nova Portaria SAR nº 14/2026 diminui esse limite para 30%. A medida foi publicada pelo Governo de Santa Catarina para adequação às normas federais.
Produtores afirmam que a alteração compromete características históricas da receita original, mantida há gerações por descendentes de imigrantes alemães na região do Vale e Alto Vale do Itajaí. A Linguiça Blumenau possui reconhecimento cultural e selo de Indicação Geográfica, sendo considerada um dos símbolos da gastronomia catarinense.
A reação chegou à Assembleia Legislativa de Santa Catarina. O deputado estadual Napoleão Bernardes apresentou uma Proposta de Sustação de Ato (PSA) para tentar barrar os efeitos da portaria estadual. Segundo o parlamentar, a mudança ameaça descaracterizar um patrimônio gastronômico e cultural do estado.
A regulamentação original da Linguiça Blumenau foi criada em 2020 justamente para preservar as características tradicionais do produto e garantir segurança jurídica aos produtores catarinenses. A norma reconhece particularidades únicas da receita, como o uso de cortes nobres suínos, defumação natural e parâmetros específicos de gordura, umidade e proteína.
A Linguiça Blumenau é produzida principalmente na região e tem forte ligação histórica com a colonização alemã em Santa Catarina. Além de presença marcante na culinária regional, o produto também integra festas típicas e eventos culturais do estado.
Linguiça Blumenau
A origem da famosa linguiça remonta ao final do século XIX, quando imigrantes alemães chegaram à região do Vale do Itajaí trazendo conhecimentos de charcutaria e técnicas de conservação de carnes. Na época, era comum que as famílias produzissem embutidos artesanalmente e utilizassem defumadores caseiros para conservar os alimentos por mais tempo.
Embora leve o nome de Blumenau, a receita tradicional surgiu na região que hoje pertence ao município de Pomerode, que na época integrava o território blumenauense. Os colonizadores adaptaram receitas europeias aos ingredientes e ao clima catarinense, criando um produto com características únicas.
A Linguiça Blumenau é um embutido defumado do tipo “mettwurst”, produzido exclusivamente com carne suína, geralmente utilizando paleta, pernil e toucinho, além de alho e especiarias naturais. O processo artesanal de defumação, que pode durar mais de dois dias, é considerado essencial para garantir o sabor marcante e a textura característica do produto.
Em um dos seus primeiros relatos sobre a vida do imigrante alemão no Brasil, escrito em 1885, o pastor, teólogo e escritor germânico Gustav Stutzer narra com uma dose de entusiasmo a fartura culinária com que viviam os habitantes da Colônia Blumenau apenas três décadas após sua fundação, às margens do Rio Itajaí-Açu. “A arte de cozinhar das donas de casa aqui desempenha papel muito importante. Desproporcionalmente, vive-se muito melhor do que na Alemanha”, afirma o empolgado viajante. No texto, Stutzer exalta o tamanho das cabeças de repolho, o café forte servido com pão de milho e mel “precioso” e a quantidade de carne de porco consumida pelos colonos, “inclusive na forma de linguiça fresca e todas as demais linguiças como os alemães as produzem”.
Nascidos da necessidade de se conservar carnes numa época em que não havia refrigeração, salames, linguiças e salsichas se tornaram ícones de várias tradições culinárias.




