
A possibilidade de um El Niño forte provocar chuvas intensas em Santa Catarina tem aumentado a preocupação dos moradores do Vale do Itajaí, região historicamente atingida por enchentes. No centro das atenções está a barragem de José Boiteux, a maior do Estado, que enfrenta problemas estruturais e ainda aguarda o início de uma reforma considerada urgente.
Desde as enchentes registradas em 2023, uma das duas comportas da barragem permanece emperrada e fechada. O governo de Santa Catarina realizou a licitação para a recuperação completa da estrutura e se comprometeu a investir cerca de R$ 4,6 milhões na obra. Outros R$ 5,3 milhões deveriam ser repassados pelo governo federal.
O impasse, no entanto, está travando o início dos trabalhos. O governo estadual afirma que aguarda a liberação dos recursos federais para assinar a ordem de serviço e dar início à reforma. Já o governo federal sustenta que depende do envio da documentação da licitação para autorizar o repasse do dinheiro.
Nesta semana, o secretário estadual da Defesa Civil, Fabiano de Souza, afirmou que o Estado voltou a cobrar urgência do governo federal. Segundo ele, uma última negociação deve ocorrer nos próximos dias. Caso os recursos não sejam liberados, Santa Catarina poderá assumir integralmente os custos da reforma.
Apesar da declaração, o governo estadual ainda não definiu oficialmente quando iniciará as obras nem quanto tempo será necessário para concluir os reparos. A licitação prevê a reinstalação de sistemas mecânicos, hidráulicos e eletrônicos que teriam sido danificados ao longo dos conflitos envolvendo a estrutura.
Atualmente, a operação das comportas depende de um caminhão hidráulico, já que a casa de máquinas foi destruída e está sem equipamentos. A proposta da reforma é modernizar o sistema, permitindo o controle remoto da barragem diretamente da sede da Defesa Civil, em Florianópolis.
Os conflitos com a comunidade indígena, que marcaram a história da barragem, parecem ter diminuído. A estrutura foi construída dentro de uma terra indígena demarcada, o que gerou anos de disputas. Quando a barragem enche, moradores da região ficam isolados devido ao bloqueio de estradas e enfrentam dificuldades de acesso a escolas, postos de saúde e outros serviços essenciais.
Uma decisão judicial determinou medidas de compensação às comunidades afetadas, e parte dessas obras já está em andamento. Enquanto isso, a população do Vale do Itajaí acompanha com apreensão a demora na recuperação da barragem diante do risco de novas enchentes nos próximos meses.
Em 2020, o Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR) anunciou a liberação de R$ 21 milhões para obras de recuperação e melhorias na Barragem Norte, em José Boiteux. O investimento tinha como objetivo aumentar a segurança hídrica e a proteção contra enchentes no Vale do Itajaí, beneficiando mais de 1,5 milhão de pessoas. Do total, R$ 15,7 milhões seriam usados na conclusão do canal extravasor da barragem, enquanto R$ 5,3 milhões seriam destinados à recuperação do talude da estrutura.
Maior estrutura de controle de cheias do Brasil
A Barragem Norte é a maior estrutura de controle de cheias do Brasil e integra o sistema de prevenção de enchentes que protege a região do Alto Vale do Itajaí. Construída em 1976, a estrutura possui capacidade total de armazenamento de 357 milhões de metros cúbicos e é operada pela Defesa Civil de Santa Catarina.
Defesa Civil destaca investimento nas barragens do Alto Vale
As três estruturas existentes, Barragem Sul, em Ituporanga, Barragem Norte, em José Boiteux, e Barragem Oeste, em Taió, são responsáveis pela retenção e controle do volume de água em períodos de chuva intensa, reduzindo diretamente o risco de inundações nas cidades localizadas a jusante. Para ampliar essa capacidade de proteção, as três barragens recebem investimentos que somam R$ 94,7 milhões em obras de reforma, modernização e automação com acionamento remoto.
O Estado também destinou mais de R$ 227 milhões para desassoreamento e melhoramento fluvial. Em 2024, foram retomadas intervenções em rios que há mais de 40 anos não recebiam obras desse tipo, como Rio do Sul, Rio do Oeste, Mirim Doce e Presidente Getúlio.
Com R$ 17 milhões investidos, a rede de monitoramento hidrometeorológico passou de 42 para 172 estações em todo o Estado, com dados atualizados a cada 15 segundos. A estrutura permite emitir alertas com maior antecedência e orienta as decisões operacionais da Secretaria em tempo real.




