Câmara de Ibirama aprova em primeira votação, projeto que reconhece sinos de igrejas como patrimônio cultural

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Jor. Marcelo Zemke

Proposta gera debate sobre tradição, identidade local e laicidade do Estado; matéria segue para nova votação

Fotos Jair Fabiciack

Marcelo Zemke

A Câmara de Vereadores de Ibirama aprovou, em primeira votação, Projeto de Lei 05/2026, de autoria do vereador Gilson Ferreira da Silva, que reconhece o uso de sinos de igrejas como patrimônio cultural do município. A discussão mobilizou vereadores e comunidade, com argumentos que envolveram tradição histórica, liberdade religiosa e os limites entre cultura e Estado laico.  Em diversas regiões, a polêmica sobre sinos de igrejas envolve o conflito entre tradição religiosa e o direito ao sossego. O projeto, que segue para discussão final na próxima semana.

Durante a sessão, o pároco da Igreja Santo Huberto, padre Rafael Rodrigo Scolaro, foi convidado a utilizar a tribuna para contextualizar a importância dos sinos ao longo da história. Segundo ele, o uso remonta aos primeiros séculos do cristianismo e ultrapassa a função prática de comunicação. “Os sinos não servem apenas para avisar horários de missa. Eles têm um significado espiritual, simbólico e comunitário. Marcam momentos importantes da vida das pessoas, como celebrações, luto e eventos religiosos”, destacou.

O pároco também relembrou a presença histórica dos sinos no município. “O primeiro sino católico em Ibirama foi instalado em 1909. Desde então, o som dos sinos acompanha o crescimento da cidade e faz parte da memória afetiva da população”, afirmou.

Ele ainda ressaltou que a prática não se restringe a uma única denominação. “Diversas igrejas utilizam sinos, cada uma dentro da sua tradição. Isso mostra que estamos falando de um elemento cultural amplo, que atravessa gerações”, completou.

O padre informou ainda que cada sino produz uma nota específica, de acordo com a quantidade de bronze.  “São instrumentos de Deus, da evangelização, da fé, da cultura e da história dos nossos munícipes, do nosso povo e do nosso cristianismo.  Agradeço muito, meus queridos, a atenção dos senhores e das senhoras, e estou aberto a dúvidas, se às vezes tiver alguma pergunta, o padre está aqui à disposição”, finalizou.

Argumentos favoráveis destacam identidade cultural

Vereadores que votaram favoravelmente ao projeto enfatizaram o papel dos sinos como parte da identidade cultural de Ibirama.

Para os parlamentares, o reconhecimento formal não cria uma nova prática, mas apenas protege algo que já faz parte do cotidiano da cidade. “Não estamos criando nada novo. Estamos reconhecendo uma tradição que sempre existiu e que tem valor para a nossa comunidade”, afirmou um dos vereadores.

Outro ponto levantado foi o caráter comunitário do som dos sinos, que historicamente serviu como meio de comunicação antes da popularização de tecnologias modernas. “Antigamente, o sino avisava desde celebrações até situações de emergência. Era uma forma de comunicação coletiva que hoje tem também um valor simbólico”, disse outro parlamentar.

Divergências e questionamentos sobre laicidade

Apesar da aprovação por maioria, o projeto também gerou debate entre os vereadores, especialmente em relação ao princípio constitucional da laicidade do Estado.

Um dos votos contrários levantou preocupação com a possibilidade de o poder público privilegiar manifestações religiosas específicas. “O Estado é laico. Quando se reconhece oficialmente um símbolo ligado a uma religião, é preciso garantir que todas as demais manifestações tenham o mesmo tratamento”, argumentou, o vereador Saulo Fonseca.

Mesmo entre os vereadores favoráveis, houve ponderações nesse sentido. “Sou favorável, mas precisamos ter consciência de que outras religiões também podem buscar esse reconhecimento. E isso é legítimo”, destacou uma vereadora.

A discussão evidenciou a necessidade de equilíbrio entre a valorização cultural e o respeito à diversidade religiosa.

Abrangência do projeto

O autor da proposta, Gilson Ferreira da Silva, explicou que o projeto não se limita ao uso dos sinos, mas busca proteger um conjunto mais amplo de manifestações culturais e religiosas presentes no município. “A ideia é dar respaldo legal não só para os sinos, mas para outras expressões como festas religiosas, procissões e celebrações que fazem parte da história de Ibirama”, afirmou.

Segundo ele, o texto foi elaborado com o cuidado de não restringir o reconhecimento a uma única religião, permitindo que outras tradições também sejam contempladas.

Tramitação e próximos passos

Como foi aprovado em primeira votação, o projeto ainda precisa passar por nova análise em plenário antes de seguir para sanção do Executivo.

Caso seja definitivamente aprovado, o reconhecimento dos sinos como patrimônio cultural poderá servir como instrumento de proteção e valorização dessas manifestações, inclusive em eventuais discussões futuras sobre regulamentações urbanas e questões de convivência.

Encerramento com mensagem de valorização cultural

Ao final da sessão, o padre Rafael agradeceu o espaço concedido pelos vereadores e reforçou o caráter cultural da proposta.

“Mais do que uma questão religiosa, estamos falando de história, de identidade e de memória coletiva. Os sinos fazem parte daquilo que somos como comunidade”, concluiu.

A sessão foi encerrada com uma oração, marcando simbolicamente o tom do debate que uniu fé, cultura e política no plenário.

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História dos Sinos

O padre Rafael explicou que o uso dos sinos nas igrejas cristãs remonta ao século III da era cristã. Inicialmente, eles eram utilizados especialmente em mosteiros, com a função prática de organizar a rotina dos monges, marcando os horários das orações ao longo do dia.

Um marco importante ocorreu no ano 313, com o Edito de Milão, proclamado pelo imperador Constantino, que garantiu liberdade de culto aos cristãos. A partir daí, a Igreja passou a se estruturar publicamente — e os sinos começaram a ganhar espaço mais amplo.

Em Ibirama, essa tradição também tem raízes profundas, já que a comunidade católica se estabeleceu em 1905 e o primeiro sino foi instalado em 1909, com a conclusão da primeira igreja. “Isso representa mais de um século de presença do sino na vida religiosa local”.

Os quatro sinos da torre Padre José Brandel foram adquiridos pela comunidade no ano de 1951. Além disso, a tradição dos sinos também está presente na comunidade luterana.