Eles migraram para a produção de uvas e hoje colhem os frutos do investimento
Marcelo Zemke
A decisão de abandonar uma cultura tradicional e apostar em algo totalmente novo exigiu coragem, planejamento e, sobretudo, persistência. Em José Boiteux, no Alto Vale do Itajaí, os irmãos Rogério Meneghelli e Sandro Meneghelli são exemplo de como a diversificação agrícola pode gerar renda, valor agregado e sustentabilidade no meio rural. Após décadas dedicados ao cultivo do tabaco, eles migraram para a produção de uvas e hoje colhem os frutos do investimento, com vinhos artesanais que já conquistaram espaço no mercado regional.
A mudança começou a ser desenhada em 2012, após uma safra frustrada de fumo, marcada pela estiagem. Rogério conta que a ideia surgiu quase de forma despretensiosa, a partir de uma conversa em família. “O pai sempre dizia que gostava de ver uma roça de uva ali na propriedade, achava que a terra era boa para isso. Naquele momento difícil do fumo, aquilo acabou virando uma alternativa real”, recorda.
No ano seguinte, o projeto saiu do papel. Em setembro de 2013, os irmãos plantaram o primeiro parreiral, trazendo 2.350 mudas do Rio Grande do Sul, no município de Farroupilha, referência na viticultura. O cultivo foi implantado no sistema de espaldeira, semelhante a uma cerca, técnica que facilita o manejo e a sanidade das plantas. Durante um período, a produção de uva e o fumo coexistiram na propriedade, mas logo ficou claro que seria preciso escolher um caminho.
“A gente sempre achava que a uva estava atrapalhando o fumo, quando na verdade era o contrário. O técnico nos orientou que, para dar certo, era preciso se envolver de verdade com a cultura”, explica Rogério. Em 2020, veio a decisão definitiva: abandonar o tabaco e ampliar a área de videiras. Com isso, a propriedade passou a contar com cerca de 5 mil pés de uva, incluindo parreirais no sistema em “Y”, conhecido como manjedoura, que permite melhor aproveitamento da área e maior produtividade.
Superando dificuldades

O percurso, no entanto, foi marcado por desafios climáticos severos. Em 2021, um forte granizo comprometeu a produção. No ano seguinte, o excesso de chuvas favoreceu doenças fúngicas, resultando em perdas superiores a 50% da safra. Mesmo diante das dificuldades, os irmãos optaram por não interromper a atividade. “A gente comprava uva de fora para continuar vendendo na propriedade e não perder os clientes. Era uma forma de manter o nome e a confiança de quem já comprava da gente”, relata.
A persistência começou a dar resultados mais expressivos a partir de 2024 e, principalmente, em 2025, quando a propriedade colheu cerca de 30 toneladas de uva de mesa. Paralelamente, os irmãos passaram a investir com mais intensidade na produção de uvas viníferas, como Bordeaux e Niágara Branca, destinadas à fabricação de vinho. Para a safra atual, iniciada em janeiro, a expectativa é ainda mais animadora. “Estamos no meio da colheita e tudo indica que será um ano recorde. A projeção é chegar perto de 40 toneladas, somando uva de mesa e uva para vinho”, destaca Rogério.
Vinhos artesanais

Hoje, a vinificação é feita de forma totalmente artesanal, em uma pequena estrutura na propriedade. A produção anual gira em torno de 6 mil garrafas, que são comercializadas ao longo do ano, entre uma safra e outra. “A gente não consegue nem estocar. Vende tudo e, às vezes, ainda falta”, afirma. O portfólio inclui cinco tipos de vinhos, entre secos e suaves: tinto seco, branco seco, rosé seco, tinto suave e um rosé suave exclusivo da propriedade, elaborado a partir de quatro variedades de uva. Há ainda planos para lançar um vinho amadeirado, com Bordeaux envelhecido em madeira.
Além do vinho, a venda direta de uva de mesa na propriedade se tornou um diferencial importante. No ano passado, cerca de 15 toneladas foram comercializadas diretamente ao consumidor, garantindo maior rentabilidade. Para este ano, a expectativa é ultrapassar as 20 toneladas vendidas dessa forma. A uva de segunda é aproveitada na produção de vinho, enquanto parte da colheita é encaminhada para uma indústria de suco em Pinheiro Preto.
A rotina de trabalho é intensa e basicamente familiar. Rogério concilia as atividades na propriedade com a carreira na Polícia Militar, atuando até o meio-dia durante o período de safra. Sandro, por sua vez, deixou o emprego no comércio para se dedicar integralmente à colheita e ao manejo das videiras nesta época do ano. “No começo foi tudo muito novo. Fizemos cursos, buscamos informação, mas aprendemos mesmo foi errando e corrigindo na prática”, relata Rogério.
Para o futuro, os irmãos planejam dar um novo salto. Entre os projetos está a construção de um barracão próprio para a vinícola, com melhor estrutura para produção e atendimento ao público. A ideia é ampliar a linha de produtos, incluindo suco integral de uva, geleias e até a destilação do bagaço da uva para a produção de graspa. “Queremos aproveitar tudo o que a uva oferece, gerar mais valor e oferecer mais opções para quem nos visita”, projeta.
A trajetória dos irmãos Meneghelli reforça que a diversificação agrícola, aliada à persistência e ao aprendizado contínuo, pode transformar realidades no campo. O que começou como uma alternativa ao fumo se consolidou como um novo modelo de produção, com identidade local, valor agregado e perspectivas de crescimento para os próximos anos. “Fica o convite caso queira nós visitar e conhecer nossa propriedade, essa semana nossas uvas estão um espetáculo, tem um parreiral que não tiramos nada, é de encher os olhos’, convida.
SERVIÇO
Uvas de Vinhos Meneghelli
Endereço: Rua 13 de Maio, nº 1078 – Centro
Município: José Boiteux
Produção local de uvas e vinhos artesanais, valorizando a agricultura familiar e a tradição no campo.




