Mulheres contam suas histórias de superação e determinação através da educação

Marcelo Zemke
“Mulheres precisam se levantar, e só estudando, se formando, podemos ser donas do nosso próprio destino” Claudineia Aparecida dos Santos
“Antes, eu não tinha coragem de dar minha opinião” Kássia Xavier de Oliveira Zickuhr
No Dia Internacional da Mulher, histórias de coragem e persistência ganham voz no Centro de Educação de Jovens e Adultos (CEJA), onde mulheres de diferentes idades e trajetórias decidiram retomar os estudos para mudar suas vidas. Entre desafios, sonhos e a vontade de recomeçar, elas provam que nunca é tarde para aprender e que a educação é a chave para um futuro com mais oportunidades.
Para muitas dessas mulheres, a decisão de voltar à sala de aula não foi fácil. A rotina de trabalho, os desafios familiares e a falta de tempo foram barreiras que as afastaram da educação. No entanto, ao ingressarem no CEJA, encontraram mais do que uma oportunidade de aprendizado: descobriram apoio, incentivo e a chance de reescrever suas histórias.
A diretora do CEJA, Roselaine Lídia Schmidt, destaca a importância do Dia Internacional da Mulher como um momento de reflexão sobre a força e o valor de cada mulher na sociedade. “Não se trata apenas de uma data comemorativa, mas de um momento para reconhecermos o quão fundamentais somos para o mundo ao nosso redor e para a transformação de nossas próprias vidas”, afirma Roselaine.

Dia da Mulher
Histórias de Superação
Entre as histórias inspiradoras está a de Claudineia Aparecida dos Santos de 43 anos. Desde a infância, a vida impôs desafios imensos. Órfã de pai e mãe, cresceu sob a tutela de pais adotivos que a proibiram de estudar. Foi submetida ao trabalho forçado, teve sua identidade apagada, sua voz silenciada. “Eu fui escrava”, relembra. Entre o serviço doméstico e as humilhações, encontrava forças para sonhar com um futuro diferente.
O caminho até a sala de aula foi marcado por medo e superação. “Já tentei estudar várias vezes, mas o pânico me impedia”, conta. A insegurança e os traumas a afastavam da educação, mas a determinação sempre a trouxe de volta. Hoje, a escola é um símbolo de resistência, um espaço onde ela transforma sua dor em aprendizado e inspiração.
A jornada de Claudineia também passou pelas ruas. Sem apoio da sociedade, precisou lutar sozinha. Moradora de rua, vítima de violência doméstica, sobreviveu e se reergueu. “Fui violentada, diminuída, mas não deixei que isso definisse quem sou. Mulheres precisam se levantar, e só estudando, se formando, podemos ser donas do nosso próprio destino.”, disse
Hoje, é dona de um negócio próprio, empreendedora por necessidade e por vocação. “Construí minha loja com garra. Vim do lixo e me transformei.” Apesar de anos de trabalho sem direitos reconhecidos, hoje luta para garantir que outras mulheres conheçam seus direitos e não passem pelo que passou.
Seu nome carrega a força da ancestralidade. “Meu pai, Ulisses José dos Santos, morreu como indigente. Mas da nossa família saiu uma que vai fazer a diferença. Estudar me devolveu minha identidade, meu direito de ser quem sou. Mulheres, lutem! Não deixem ninguém sabotar os sonhos de vocês. Nós somos donas do nosso destino!”, disse.
Superar desafios através da educação
A aluna Josiane do Prado, que tem um sonho muito especial: entregar para sua mãe uma filha escolarizada, com um futuro acadêmico promissor. Em sua família numerosa de nove irmãos, apenas três irmãos conseguiram concluir o ensino médio. “Eu parei de estudar porque formei minha família, meus irmãos pararam porque precisavam trabalhar. Hoje, meu estudo faz diferença em tudo: no meu trabalho, na minha casa e, principalmente, na educação da minha filha, que também está seguindo esse caminho”, relata Josi emocionada.
Outra história de superação é a de Kássia Xavier de Oliveira Zickuhr, que enfrentou diversos recomeços. Ela conta que o incentivo veio da empresa em que trabalha, a Manoel Marchetti. “Vim e voltei para o CEJA umas quatro, cinco vezes. Mas, um dia, uma amiga me incentivou e disse que eu ainda tinha chance de ir para frente. Isso me motivou a continuar e a acreditar em mim”, conta. Sua trajetória no CEJA mudou não apenas sua formação, mas também sua autoestima e confiança. “Antes, eu não tinha coragem de dar minha opinião. Hoje, consigo conversar com meu encarregado no trabalho e me expressar melhor”, relatou Kássia, que agora sai com a conclusão dos estudos.
Miguerline Joseph, natural do Haiti, está conquistando novos passos em sua jornada educacional. Ela compartilhou como sua experiência no Brasil está se transformando por meio da educação, destacando sua vontade de se adaptar e alcançar seus objetivos. Ela mencionou como é gratificante poder, agora, se comunicar com mais facilidade, algo que antes era um desafio. A realização do concurso da prefeitura de Ibirama foi uma grande vitória para ela, e a experiência trouxe ainda mais confiança em suas capacidades. Miguerline acredita que, com a educação e o esforço contínuo, ela alcançará o futuro que deseja, criando um novo caminho para sua vida no Brasil. “Vou fazer uma faculdade. O estudo é um apoio para eu conseguir o que eu quero”.
Jenifer M. O. Bertotti, outra estudante do CEJA, também compartilha sua experiência. “Eu era muito fechada, tinha medo de falar com as pessoas. Mas, aos poucos, fui mudando. Hoje, vejo que estar aqui é um compromisso que assumo para construir um futuro melhor. Quero mudar, quero fazer faculdade e conquistar meus sonhos.”
A voz embargada de emoção, mas cheia de determinação, Ivete Siqueira tomou a palavra. “Vou falar”, disse, e sua história começou a ecoar na sala. Ela nunca concluiu o ensino médio, nem o fundamental. A escola, que um dia foi parte de sua rotina, tornou-se um lugar de dor após a perda de seu melhor amigo, Samuel. “Ele estudava comigo, mas morreu. E eu saí. Não quis mais voltar”, revelou. A vida seguiu seu curso e trouxe novos desafios. A maternidade chegou, trazendo consigo uma nova perspectiva. “Engravidei e voltei por conta do meu filho. Como é que eu vou deixar de estudar e dar um exemplo ruim para ele?” Foi esse pensamento que a fez retomar os estudos com um propósito ainda maior. Mas Ivete não quer parar por aqui. Seu sonho agora é a engenharia civil. “Preciso concluir. E vou concluir”, afirmou, com convicção. No ano que vem, estará na universidade, iniciando uma nova etapa de sua jornada.
A turma é forma ainda pelas alunas Jurema da Silva, Chaieny N. Caetano, Koani Renata Pires, Lara Petersen, Helen B. V. P. Priprá, Denise de Oliveira , Paloma Cristina Tambani e Solange Fogolari Carvalho.
Essas histórias são apenas algumas entre tantas que demonstram a força e a determinação das mulheres que buscam na educação um novo caminho. Neste Dia Internacional da Mulher, são celebradas essas trajetórias de resistência e transformação, provando que cada diploma conquistado representa muito mais do que um avanço: é uma vitória pessoal e social.