Foto circulou pelas redes sociais e diversos veículos de comunicação nacionais e até de outros países e virou um dos símbolos da tragédia
Receba as notícias da Rede Vale Norte no seu WhatsApp. Clique aqui.
“Sei que eu estava sentindo no momento e olhar para ela me faz recordar. O silêncio disse tudo, estava sem chão como muitas pessoas e sem saber por onde recomeçar” Amanda Rossi
Há seis meses, Presidente Getúlio vivia uma das maiores tragédias de sua história, evento este, que foi além de perdas financeiras e estragos, mas que deixou um saldo de 18 mortes no município (foram outras duas em Rio do Sul e uma em Ibirama, totalizando 21 vítimas). Aquela noite de quarta-feira (16) e a madrugada de quinta-feira (17) do mês de dezembro, é como uma divisão histórica de ocupação do solo no município, principalmente no bairro Revólver, o mais atingido pela tragédia. No Centro, creches, escolas e postos de saúde foram parcialmente destruídos pela lama e vegetação arrastadas pela correnteza.
Apesar de o cenário ser bem diferente daquele encontrado há seis meses, as feridas ainda estão abertas, e os deslizamentos nas encostas ainda impressionam.
Ainda na quinta-feira, 17, uma foto icônica circulou pelas redes sociais e diversos veículos de comunicação nacionais e até de outros países, fazendo valer a força de uma composição fotográfica no meio jornalístico. Apesar toda a tragédia, lama e movimentação das equipes de resgate, essa única foto expressava toda a dor e desolação daquele momento. A fotografia do Jornal Vale do Norte (Marcelo Zemke) foi produzida na ética profissional, a imagem foi captada a distância, em via pública e respeitando o espaço das equipes socorristas e das vítimas.
Na imagem estava a jovem Amanda Regina Rossi (Anos) e seu cão cobertos de lama e sentados na guia da calçada. O pastor alemão Mufá, na noite anterior havia sido resgatado da correnteza e Amanda havia tido a casa invadida pela água, perdendo todos os seus pertences e sua história, sobrando apenas os pés descalços e a roupa ainda úmida no corpo.
Ela e os pais, Márcia Bernadete e Geraldo Rossi, ainda lamentam as perdas materiais sofridas naquele dia, mas se mantém unidos e agradecem pela tragédia não ter vitimado nenhum membro da família. Geraldo, estima prejuízos médios de R$70mil. “Sobrou apenas a TV que estava presa na parede. O resto foi embora com a correnteza”.
Imagem ajudou família
Ainda hoje, as lembranças daquele dia, trazem lágrimas à família. Além de todo o trauma, também são lembradas as pessoas conhecidas da comunidade que faleceram, como vizinhos e amigos. Hoje, em situação parecida com a de muitas famílias, são enfrentadas dificuldades financeiras e a foto chegou a ilustrar uma vaquinha virtual para ajudar, feita por uma amiga de Amanda e também esteve em páginas de protetores de animais, buscando doações de rações.
Já para Amanda, a foto representa desolação e remete a uma das piores fases de sua vida. “Ainda não consigo encarar esta foto. Sei que eu estava sentindo no momento e olhar para ela me faz recordar. O silêncio disse tudo, estava sem chão como muitas pessoas e sem saber por onde recomeçar”, finaliza.
“Meu pensamento naquele dia era ‘E agora?’”, conta Amanda. Ela relembra que graças a foto, muitas pessoas se sensibilizaram com a família e ajudaram. Além de parentes e amigos em diversas partes do Estado, uma tia que mora na Itália também visualizou a fotografia.
Geraldo relembra que no segundo dia, a foto estava em 500 mil visualizações e com isso veio a ajuda. “Muitas pessoas que não conhecíamos vieram ajudar, até pessoas que também haviam perdido tudo, inclusive a casa. Ainda há muitas pessoas boas neste mundo”, conta. O pensamento de Márcia naquela manhã era de abandono. “Estávamos só nos três e quem iria nos ajudar? Também não tínhamos mais enxada ou pá para fazer a limpeza. Tudo havia sido perdido. Depois começou a vir muita gente” conta emocionada. Ela lembra que também repassou parte das doações para outras famílias que também necessitavam.
A imagem da tragédia
Amanda conta que não sabia da existência da foto até ouvir sobre ela dos colegas de escola. “Meus amigos de escola estavam falando da foto, mas eu sabia que se tratava”, lembra. A foto foi usada por diversos veículos de comunicação, e em algumas mídias para arrecadar doações.
Já pai lembra que muitos tinham como referência a imagem. “Perguntavam se eu havia visto a foto da Amandinha e o Mufá. Inclusive ele estava na foto, pois conseguimos tirar ele da correnteza, senão ele iria embora junto. Não sei de onde tiramos forças”, disse Geraldo. O ribeirão Revólver passa nos fundos do quintal da casa e a família relembrou que ouviu muitos gritos de socorro naquela noite. “Não podíamos fazer nada”.
As lembranças da situação vivida e as perdas ainda são dolorosas para a família, que perdeu todos os moveis da casa. “Foi bom vocês aparecerem para podermos agradecer. Foram muitas pessoas que ajudaram e não tivemos a oportunidade de dizer obrigado. Podemos cruzar com elas nas ruas e hoje serem desconhecidos”, agradece Márcia.
Por Marcelo Zemke Rede Vale Norte




