Bonnie foi resgatada grávida, após ser encontrada soterrada com apenas a cabeça para fora da terra. Investigação identificou os envolvidos e ação penal busca responsabilização criminal e reparação pelos danos causados ao animal

A cadela Bonnie, que foi encontrada enterrada viva enquanto estava grávida de quatro filhotes, tornou-se símbolo da luta contra os maus-tratos aos animais em Santa Catarina. O caso, registrado no bairro Jardim Paraíso, em Joinville, ganhou repercussão estadual e nacional e agora avança na Justiça com a responsabilização dos envolvidos.
De acordo com as investigações, Bonnie foi localizada soterrada, com apenas a cabeça para fora da terra. O resgate ocorreu após denúncias e mobilizou equipes de proteção animal. Quando foi encontrada, a cadela ainda estava viva, mas apresentava sinais de extremo sofrimento.
Laudos veterinários apontaram que Bonnie tentou desesperadamente escapar. Os exames identificaram terra nas gengivas, na língua e sob as unhas, indicando que o animal cavou na tentativa de se libertar. Além disso, ela apresentava desidratação, exaustão e elevado nível de estresse.
A investigação conduzida pela Polícia Civil resultou no cumprimento de mandados de busca e apreensão, que permitiram identificar os responsáveis pelo crime. Entre os investigados estão um grupo de adolescentes e uma mulher. O tutor original da cadela também foi denunciado por negligência, por não garantir a proteção e os cuidados necessários ao animal.
Com base nas provas reunidas, o Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) ajuizou ação penal contra os envolvidos. Além da responsabilização criminal, o órgão pediu à Justiça a condenação dos acusados ao pagamento de uma indenização superior a R$ 41 mil, destinada à reparação dos danos físicos e psicológicos sofridos por Bonnie.
Segundo o Ministério Público, o pedido considera a gravidade dos maus-tratos, o intenso sofrimento imposto ao animal, os custos com atendimento veterinário e o caráter pedagógico da condenação, reforçando a necessidade de punição para crimes dessa natureza.
Após o resgate, Bonnie foi encaminhada ao Centro de Bem-Estar Animal de Joinville, onde recebeu atendimento veterinário especializado. A cadela conseguiu se recuperar, levou a gestação até o fim e deu à luz quatro filhotes saudáveis.
Concluído o tratamento, Bonnie e seus filhotes foram colocados para adoção responsável e todos encontraram novos lares.
O caso gerou ampla repercussão em Santa Catarina e reacendeu o debate sobre a proteção animal e a aplicação rigorosa da legislação contra maus-tratos. A legislação brasileira prevê penas mais severas para crimes cometidos contra cães e gatos, incluindo prisão, multa e a possibilidade de indenização pelos danos causados aos animais.
MPSC
De acordo com a peça acusatória da 21ª Promotoria de Justiça da Comarca de Joinville, o crime teria ocorrido na manhã de 6 de fevereiro. A acusada teria agido com outros envolvidos, contribuindo para o enterramento da cachorrinha Bonnie, então chamada Chavosa, em um condomínio no bairro Jardim Paraíso.
O MPSC argumenta na ação que o animal foi submetido a intenso sofrimento físico e térmico, em situação classificada como de extrema crueldade. A morte somente não ocorreu porque moradores ouviram os latidos da cadela, conseguiram retirá-la da cova e providenciar atendimento veterinário emergencial.
De acordo com a denúncia, a atitude dos envolvidos atingiu diretamente Bonnie e os quatro filhotes que ela gestava. Dois nasceram com vida, identificados como Bella e Stella, enquanto outros dois, Beca e Billy, morreram em decorrência dos fatos investigados.
A Promotora de Justiça Simone Cristina Schultz, autora da ação, enfatizou que “o caso demanda resposta penal proporcional à brutalidade praticada, pois a conduta da denunciada se enquadra no crime de maus-tratos previsto na Lei de Crimes Ambientais”.
Ela ressalta também que “os animais devem ser reconhecidos como seres sencientes, capazes de sentir dor e sofrimento. A acusada agiu com extrema desumanidade, tendo submetido a canina a intenso e prolongado sofrimento físico e psíquico, em contexto de absoluta vulnerabilidade, inclusive por se tratar de animal prenhe de quatro filhotes, circunstância que evidencia o agravamento das consequências da ação e eleva significativamente o grau de reprovabilidade da conduta”.
Consta ainda nos autos que um relatório médico-veterinário anexado à investigação apontou que Bonnie apresentou quadro grave de choque associado a hipertermia, com temperatura corporal de 40,7 °C, além de comprometimentos neurológicos e sistêmicos. Os exames também constataram a presença de terra na gengiva, na língua e nas unhas do animal, evidenciando o soterramento e as tentativas de escapar da cova. Além do oferecimento da denúncia, o MPSC deixou de propor um acordo de não persecução penal por entender que o caso envolve violência extrema contra um animal senciente, circunstâncias que tornam inadequada a aplicação do benefício diante da gravidade concreta dos fatos.




