Aos 105 anos, Margot Betz guarda na memória a história de uma vida que sempre voou alto

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Jor. Marcelo Zemke

Marcelo Zemke

Era um fim de tarde calma quando Margot Betz, ou simplesmente Frau Betz, como é carinhosamente chamada por quem a conhece em Ibirama, abriu a porta de sua casa para receber a reportagem do JVN, onde havia sido homenageada pela passagem dos 105 anos de idade. Sentada à mesa, entretida por jogos de tabuleiro, Margot sorri, mostra lucidez, vivacidade e relembra — entre pausas e recordações — pedaços de uma história que mistura coragem, trabalho, família e, sobretudo, o amor pelos céus.

Logo no hall de entrada da residência, repousa uma peça especial: o único avião em miniatura inacabado de Rolf Betz (in memoriam) — o lendário Hughes H-4 Hercules, o famoso Spruce Goose do visionário aviador Howard Hughes. A peça incompleta, entre todas as mais de 70 réplicas construídas por Rolf, é um lembrete silencioso de que a paixão pela aviação ainda habita a casa, atravessa as paredes, preenche as lembranças e mantém viva a história de um homem que jamais deixou de voar — nem mesmo depois de partir.

Aos 105 anos, Margot ainda guarda no olhar o brilho de quem sabe o valor de cada página de sua vida. Nascida em Dresden, na Alemanha, foi filha do fundador da fábrica de brinquedos Saxônia, um marco para Ibirama e para toda Santa Catarina. Foi ali, entre brinquedos, madeira, parafusos e sonhos, que construiu uma vida de trabalho — mas também de liberdade.

Margot dividia essa paixão com o marido, Rolf Betz – que faleceu em Ibirama em julho de 2018, um apaixonado pela aviação desde menino. Os dois se conheceram em um clube de planadores em Cumbica, nos anos 1930. Ela pilotava, ele também. Juntos, sonhavam longe, quando voar ainda era aventura de poucos.

Uma vida entre brinquedos, planadores e sonhos

Margot Betz nasceu em Dresden, na Alemanha, em 26 de junho de 1920. Seu pai veio primeiro para Hammonia, em 1927, mas, por conta de uma doença na família na Alemanha, a vinda definitiva de todos para o Brasil só aconteceu em 1934. Inicialmente, a família se estabeleceu em Rio Claro, no interior de São Paulo, onde ficaram até 1938, quando se mudaram para a capital paulista.

Foi em São Paulo que Dona Margot descobriu sua paixão pelos céus. Ainda jovem, ingressou em um clube de planadores, onde aprendeu a pilotar ao lado de um grupo de 10 a 12 rapazes — entre eles, Rolf Betz, também alemão, igualmente apaixonado pela aviação, com quem se casou em 1946.

A Segunda Guerra Mundial interrompeu momentaneamente esse sonho: com a ruptura das relações entre Brasil e Alemanha, os alemães foram proibidos de voar. Mas o casal encontrou no aeromodelismo uma forma de manter vivo o amor pela aviação.

A família Bretschneider também se destacou no trabalho. Em São Paulo, abriram uma fábrica de brinquedos de madeira que levava o nome do patriarca, Erich Bretschneider. Margot ajudava os pais na produção, conciliando o trabalho com a paixão pelos planadores e, mais tarde, com os cuidados da nova família.

Vinda para Ibirama

Em 1951, Margot e Rolf se mudaram para Ibirama, onde o pai dela já vivia. Aqui, ajudaram a escrever mais um capítulo de pioneirismo: contribuíram para a história da Cia Saxônia Ltda, uma fábrica que marcou a infância de muitas crianças catarinenses com seus brinquedos de madeira.

Mas a paixão pelo céu nunca os deixou. Em 1964, Rolf realizou um de seus maiores sonhos: decolou do aeroporto de Lontras com o Pou du Ciel — o famoso “Pulga do Céu”, projetado e montado por ele mesmo, usando um motor de Fusca. “Quando a gente sai do chão, parece que as preocupações ficam lá embaixo. A gente se sente livre”, costumava dizer Rolf, resumindo em uma frase o sentimento que ele e Margot sempre compartilharam. Por onde passavam em Ibirama, Margot e Rolf eram lembrados pelo jeito carinhoso de caminhar de mãos dadas — pelas ruas e pela vida.

Essa liberdade também se transformou em miniaturas: desde 1954, Rolf construiu réplicas fiéis de aviões, peça por peça, com precisão de aviador e paciência de artesão. Cerca de 75 modelos hoje repousam em uma sala especial do Museu de Ibirama — doados pelo próprio Rolf, como um presente para todos que desejam conhecer um pedaço desse legado. Já o Pulga do Céu, silencioso mas cheio de histórias, ainda está guardado no Hansahoehe,— único exemplar do tipo na América do Sul.

Hoje, Frau Margot, com seu sorriso tranquilo, ajeita as peças do jogo de tabuleiro, ouve músicas no YouTube,  conta histórias e relembra com gratidão cada detalhe de uma vida longa, que ainda pulsa viva em cada palavra. Entre a Alemanha, São Paulo e Ibirama, entre planadores e brinquedos, Margot e Rolf construíram muito mais que aviões: deixaram um legado de coragem, pioneirismo e liberdade. “Era um tempo bom”, diz, repetidas vezes.

Se há um legado maior do que aviões em miniatura, é o exemplo de quem não temeu o céu nem a vida: Rolf e Margot ensinaram que sonhar é como levantar voo — a gente deixa as preocupações no chão, e, lá de cima, tudo é possível.