Diante do cenário, ressurge a preocupação com a Barragem Norte em José Boiteux

Lege Desvio de TSM (°C) para a primeira quinzena de abril de 2026. Elaboração: INMET. Fonte dos dados: CPC/NOAA.
As projeções climáticas mais recentes indicam aumento significativo na probabilidade de formação do El Niño ao longo de 2026, o que já mobiliza especialistas e setores produtivos em todo o país. O fenômeno, caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas superficiais do Oceano Pacífico equatorial, integra o sistema ENOS, que alterna entre fases quente (El Niño), fria (La Niña) e neutra.
De acordo com o Centro de Previsão Climática (CPC), órgão ligado à Administração Nacional Oceânica e Atmosférica, há cerca de 80% de chance de manutenção da neutralidade climática no Pacífico equatorial até o fim do primeiro semestre. No entanto, a partir do trimestre junho-julho-agosto, a probabilidade de formação do El Niño sobe para 79%, ultrapassando 90% entre agosto e outubro, com possibilidade de persistência até 2027.
O fenômeno está diretamente ligado ao enfraquecimento dos ventos alísios — correntes atmosféricas que normalmente empurram as águas quentes para o oeste do Pacífico. Quando esses ventos perdem força ou mudam de direção, as águas quentes permanecem na superfície, elevando as temperaturas do mar em pelo menos 0,5°C acima da média, podendo chegar a 3°C ou mais.
Barragem Norte em José Boiteux

A possibilidade de formação do El Niño no segundo semestre deste ano volta a preocupar moradores do Vale do Itajaí, especialmente após os impactos registrados em 2023, quando chuvas intensas provocaram enchentes, desalojaram famílias e colocaram à prova o sistema de contenção de cheias da região. O último episódio de El Niño, registrado entre 2023 e o início de 2024, trouxe impactos significativos ao estado, principalmente no Alto Vale do Itajaí. Em outubro de 2023, após dias consecutivos de chuva intensa, o nível dos rios subiu rapidamente e provocou inundações em diversos municípios.
Diante do cenário, ressurge a preocupação com a Barragem Norte em José Boiteux. Considerada a maior barragem de contenção de cheias do país, com capacidade de 357 milhões de metros cúbicos, a estrutura atingiu seu limite pela primeira vez desde a inauguração, em 1992, durante o episódio de 2023, chegando a verter água. Diferentemente das barragens de Taió e Ituporanga — menores e com extravasamento mais frequente —, o comportamento da Barragem Norte acendeu o alerta para sua capacidade operacional em situações críticas.
Atualmente, a estrutura enfrenta problemas técnicos. Uma das comportas está emperrada e não abre, enquanto o sistema como um todo já vinha operando de forma improvisada, com acionamento por caminhão hidráulico após episódios de depredação ligados a conflitos com comunidades indígenas locais. A limitação compromete a gestão do reservatório, já que o controle do nível da água depende diretamente da abertura e fechamento das comportas.
A Defesa Civil de Santa Catarina informou que, caso necessário, a barragem poderá ser operada manualmente — e apenas com uma comporta funcional — até que as melhorias sejam executadas.
A obra de recuperação já foi licitada e será executada pela Construtora e Incorporadora Saks LTDA, com investimento de R$ 9,9 milhões, sendo R$ 5,3 milhões de recursos federais e R$ 4,6 milhões do governo estadual. A documentação foi encaminhada ao governo federal e aguarda análise para liberação dos recursos. Ainda não há prazo definido para o início das obras.
Além da Barragem Norte, o sistema de contenção do Vale do Itajaí conta com a Barragem Oeste, em Taió, com capacidade de 83 milhões de metros cúbicos (em operação desde 1973), e a Barragem Sul, em Ituporanga, com 93,5 milhões de metros cúbicos (desde 1979).
Barragens do Alto Vale
A barragem de Taió recebeu melhorias no sistema elétrico, troca de tubulações e bombas de drenagem, com obras concluídas no fim de 2025. Apesar disso, uma reforma geral ainda depende de licitação. Em outubro de 2023, Taió registrou alto volume de chuva, com 646,8 mm.
Já a barragem de Ituporanga teve todas as cinco comportas substituídas em 2024, após danos agravados pelas enchentes. A estrutura também foi automatizada, permitindo operação remota.
Já a barragem de Mirim Doce, considerada estratégica para ampliar a contenção de cheias no Alto Vale do Itajaí, teve o processo de implantação impactado recentemente. A licitação da obra foi lançada pelo governo do Estado, mas acabou suspensa no início do mês de abril pelo Tribunal de Contas de Santa Catarina (TCE-SC), após apontamentos de possível sobrepreço milionário e necessidade de ajustes no edital. Em nota, a Defesa Civil informou que: “A Secretaria informa que serão realizados estudos técnicos detalhados para verificar a viabilidade dos questionamentos levantados. A partir dessa avaliação, poderão ser apresentados contrapontos técnicos devidamente fundamentados ou, se necessário, serão promovidas as adequações no processo licitatório, conforme orientações do Tribunal de Contas.”





