
Uma pequena mancha na glande foi o primeiro sinal. Não doía, não incomodava. Jorge*, de 63 anos, percebeu a alteração em 2022, mas adiou a consulta por quase um ano. Quando buscou atendimento, a lesão já havia evoluído. A biópsia confirmou o diagnóstico: câncer de pênis.
Ele precisou passar por amputação parcial do órgão após a doença avançar e atingir linfonodos da virilha e da pelve. Hoje, afirma que o diagnóstico precoce poderia ter reduzido as consequências.
Brasil tem uma das maiores taxas do mundo
O câncer de pênis é considerado raro em países desenvolvidos, com menos de 1 caso por 100 mil homens. No Brasil, porém, a incidência chega a cerca de 6,8 casos por 100 mil habitantes — uma das mais altas globalmente.
Dados da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) apontam que:
- Quase 2.900 homens passaram por amputação parcial ou total nos últimos cinco anos
- Mais de 6.500 procedimentos foram realizados na última década
- Em média, cerca de 600 homens perdem parte do órgão por ano
Especialistas apontam que o cenário revela fragilidades estruturais, desigualdade de acesso à saúde e falhas na prevenção.
Principais fatores de risco
Segundo médicos da SBU, cerca de metade dos casos está associada à infecção pelo HPV, especialmente os subtipos 16 e 18, considerados de alto risco oncogênico.
Entre os principais fatores envolvidos estão:
- Infecção pelo HPV
- Falta de higiene íntima adequada
- Fimose (dificuldade de retração do prepúcio)
- Acúmulo de esmegma
- Baixo acesso à informação e saneamento
- Condições socioeconômicas vulneráveis
A fimose pode dificultar a limpeza da glande e favorecer inflamações crônicas, que aumentam o risco de alterações celulares.
Sinais que não devem ser ignorados
Diferentemente de outros tumores que evoluem de forma silenciosa, o câncer de pênis geralmente apresenta sinais visíveis.
Sintomas iniciais mais comuns:
- Ferida ou úlcera que não cicatriza
- Nódulo ou espessamento da pele
- Secreção com odor forte
- Sangramento local
O tumor costuma ser indolor no início, o que contribui para o atraso na procura por atendimento. Qualquer lesão persistente por mais de uma ou duas semanas deve ser avaliada por um urologista. A confirmação é feita por biópsia.
Tratamento e prognóstico
O tratamento depende do estágio da doença e pode incluir:
- Cirurgia (parcial ou total)
- Retirada de linfonodos
- Quimioterapia
- Radioterapia
- Em alguns casos, imunoterapia
A sobrevida em cinco anos pode chegar a 96% nos estágios iniciais. Em fases avançadas, com metástase, esse índice pode cair para cerca de 20%.
Estudo publicado em 2025 na revista científica IJIR: Your Sexual Medicine Journal aponta que os impactos vão além do físico, afetando saúde mental, autoestima, sexualidade e qualidade de vida, reforçando a importância de acompanhamento multidisciplinar.
Prevenção é possível
Especialistas destacam que o câncer de pênis é amplamente evitável.
Medidas preventivas incluem:
- Higiene íntima adequada, com retração do prepúcio para limpeza da glande
- Vacinação contra o HPV
- Circuncisão na infância (reduz significativamente o risco)
- Busca por avaliação médica diante de qualquer alteração
A incidência é maior nas regiões Norte e Nordeste, onde há maior vulnerabilidade social e menor acesso a serviços de saúde.
Jorge segue em acompanhamento e afirma que aprendeu, da forma mais difícil, que o medo e o adiamento podem custar caro. Hoje, reforça a importância de procurar ajuda ao primeiro sinal.
Fonte: Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) e especialistas entrevistados




